Pesquisar neste blog

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Alagados


Publicado no Diário Popular de 3 de janeiro de 2014

Vai ser o título do meu filme. Na trilha, a música dos Paralamas. Será rodado em um pequeno município aqui da região. Para filmá-lo eu precisarei de uma fazenda, de ruínas, de um rio, um campo de futebol, um aeroporto. Algumas cenas, poucas, serão realizadas em Brasília – DF. Vou precisar também de uma enchente.

As personagens: dois candidatos a presidente do Brasil. Alguns assessores, muitos bajuladores. Um prefeito, alguns CCs e peões de fazenda. Um capataz e sua linda filha. Um político local, de oposição, e alguns correligionários. Mais bajuladores. Vários militares. Repórter local e nacional (e talvez um internacional).
Um gaiteiro, um padre, um delegado e uma viúva. Muitos figurantes.

O argumento: a trama se desenvolve no período de eleições para presidente, disputa do segundo turno. Todos os votos do país foram apurados, menos os da cidadezinha que, na véspera do pleito, fora atingida por uma grande cheia que arrastou pontes, casas e urnas eletrônicas impossibilitando a eleição no município. No Brasil a diferença entre a votação dos dois candidatos fora mínima, de modo que os eleitores dessa cidade irão decidir a eleição. Marca-se, então, nova data para tão logo a cidade se recupere dos estragos.

Os dois candidatos voam apressados com suas equipes para o sul. Desembarcam no aeroporto de Porto Alegre e de lá seguem em helicópteros - o único jeito de chegar à região alagada.

Um dos candidatos acampa com sua equipe na fazenda do prefeito que os recebe com churrasco e baile. O outro escolhe o campo de futebol do município onde também está instalada a unidade militar de engenharia que constrói pontes provisórias.

As três semanas seguintes são de muita campanha. A cidade ferve em meio a destroços, roupas estendidas nas ruas e lama. Chegam estações de tv e de rádio. Para conquistar os votos decisivos os candidatos prometem de tudo, de aeroportos a estádios padrão FIFA; de montadoras de automóveis a futura realização de olimpíadas.

Logo o candidato que está na fazenda é acusado de seduzir a filha do capataz - quando na verdade foi o contrário. Porém, não escapa da fúria do pai da moça que passa os dias a afiar um facão resmungando “esse vai assumir, mas é na igreja ou no inferno”. O candidato do campo de futebol é suspeito de planejar um golpe militar, já que é seguidamente visto confabulando com tenentes e coronéis. O presidente atual nem se manifesta, pois seu candidato ficou pelo caminho no primeiro turno. Apenas acompanha pela TV, lá de Brasília.

Ainda não sei como terminará o filme, nem imagino onde arranjarei helicópteros e aviões, e muito menos uma enchente. Pensei em usar maquetes e miniaturas, mas acho que perderá em realismo. Mas está aí a ideia para quem quiser aproveitá-la. Coloque meu nome nos créditos e eu colaboro com a pipoca!

 foto: google imagens


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Incêndio no Uruguay



Um incêndio de grandes proporções atingiu uma lavoura no interior do Uruguay. Logo no começo a fumaça já encobria grande parte da fazenda e espalhou-se pela vizinhança. Bombeiros foram até o local e estão combatendo as chamas. Bombeiros do Brasil foram dar apoio, e centenas de voluntários brasileiros participam da ação. Muitos acamparam ao redor do foco de fumaça e ônibus chegam a todo momento. Outro carro de bombeiros, além dos cinco carros de som que foram chamados, é esperado para hoje a tarde. Um banda de reggae já se dirige ao local e a prefeitura forneceu o palco e a sonorização. Este é o terceiro dia do incêndio que não tem hora para acabar. É o quinto caso de queimada em uma plantação de maconha logo após a sua legalização pelo presidente Mujica. Outras informações depois da larica.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Livre e Errante

Publicado no Cruzeiro do Vale em 29 de agosto de 2014
Publicado no Diário Popular de 19 de dezembro de 2013



Meu livro de cabeceira é o Dom Quixote. Capa dura, 686 páginas de genialidade em fonte 10. Estou no capítulo “do que referiu um cabreiro aos que estavam com Dom Quixote”, página 75. Está ali, na cabeceira, há dezessete meses. Por três vezes comecei a lê-lo. Jamais passei da página 80. Apesar de fascinante, esta leitura tem exigido grande esforço de minha parte. Acontece o mesmo que aconteceu quando inventei de ler Guerra e Paz.  Desacompanho. Definitivamente, não me dou bem com os clássicos. Já a Marina...

Adora! Toda noite, deitada do meu lado, ela pega o livro, vira suas páginas, e lê. Do jeito dela. Às vezes ela joga o pesado volume no meu peito e fala com sua voz fininha: “Lê pra mim? Mas lê de um jeito diferente.” E eu leio. Incluo nas aventuras do cavaleiro da triste figura outras personagens. Por muitas vezes Dom Quixote e Sancho se viram encrencados com o Lobo Mau, ou com a Cuca. Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos, Patati e Patatá também participam. Certa vez a Rapunzel ficou trancada no moinho de vento e o fidalgo precisou salvá-la. A donzela jogou suas tranças e a cabeleira se enroscou nas pás no moinho. Foi terrível, mas no fim deu tudo certo. Quando minha inventividade para contar histórias dá sinais de enfraquecer eu sugiro: “quem sabe vamos ler um livro dos teus?” A Marina, com seus quase quatro anos de idade, tira o livro das minhas mãos e sentencia: “Então deixa que eu mesma leio”, e inventa suas próprias aventuras.



       Meu livro de cabeceira nem é meu de verdade. Tomei emprestado. Eu sei, eu sei! Já devia tê-lo devolvido. Mas acontece que o dono mora há centenas de quilômetros de onde estou. Devolvê-lo, neste momento, é geograficamente complicado. Posso mandá-lo pelo correio, mas perder a oportunidade de rever um amigo querido?! Não. Qualquer dia eu devolvo meu Dom Quixote que nem é meu.


          Certa vez, lendo O Dia em Que Nietzsche Chorou, pensei que mais pessoas deveriam ter acesso àquele livro. Observei minha pequena estante e percebi que todos aqueles volumes deveriam estar sendo manuseados por alguém. Foi quando tive a ideia de fazer o Livro Errante. Botei meus livros na rua, com um recadinho para quem os encontrasse. Não foi nada original, bem sei. Existem outros movimentos parecidos, como o Livro Livre. Mas aí divulguei a ideia em uma comunidade do Orkut, que na época era a rede que bombava, e a turma abraçou. Criamos uma comunidade própria com mais de trezentos usuários e a partir daí circulávamos livros pelos correios.  Tenho alguns que visitaram vários estados brasileiros e que depois voltaram cheios de mensagens e memórias. Em 2009 realizamos o Orkutchencontro, em Nova Prata. Muitas pessoas, de diversas partes do Brasil, compareceram deixando, a partir daquele momento, de serem apenas amigos virtuais. A Comunidade do Orkut não existe mais, mas o pessoal se reúne ocasionalmente até hoje. Planejam, para 2014, um encontro em Montevidéu. Marina, minha filha que em Nova Prata foi na barriga da mãe, também irá neste próximo. Assim são os livros, ampliando horizontes e estreitando relações.