Pesquisar neste blog

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um dúvida:

 a Sexta-feira chega até você ou é você que 

chega até a sexta-feira? É o tempo que 

passa ou somos nós que passamos pelo 

tempo?


Google Imagens

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Existimos enquanto pensamos



Publicado no Cruzeiro do Vale - Gaspar - SC   em 8 de outubro; e ni Diário Popular - Pelotas - RS em 11 de outubro.

A luz branca do quarto não lhe dizia muita coisa. Não avisava, por 

exemplo, se era noite ou se era dia. Saberia, se as janelas 

estivessem abertas ou se, pelo menos, as enxergasse. Fechou os

 olhos contra a vontade por alguns segundos, as pálpebras

 estavam meladas e pesavam toneladas. Uma estranha sensação 

percorria o seu corpo, como se envolto em líquido. Procurou o 

peito com as mãos, mas elas não se moveram.


- Fique quieto – ouviu, - ou posso te cortar.


Pensou em perguntar onde estava, como fazem nos filmes em 

situações como aquela. Porém, ele sabia muito bem onde, apenas 

não sabia “por que” e nem “quando”. Talvez fosse domingo, ou 

sábado. Foi na noite passada que bebera uma cerveja no bar ao 

lado da faculdade, com aquele sujeito que sonha em ser um 

desenhista famoso, enquanto esperava por seus irmãos? Neste 

caso não poderia ser domingo, pois tem certeza de que o bar só 

abre em noites de aula. Na verdade podia ser qualquer dia da

 semana, qualquer mês do ano, e podia ser manhã, tarde ou noite,

 pois a luz branca do quarto lhe dizia apenas uma coisa: que 

estava em um hospital.



Estou escrevendo minhas memórias. Além deste trecho aí de cima, 

que é o primeiro parágrafo do meu livreto particular, já escrevi 

umas 30 páginas. É um ótimo exercício de escrita. E de memória.

 Digito sem ordem cronológica. Vou lembrando e passando para a 

tela brilhante do monitor. É legal porque, de repente, me deparo 

com rostos que achei que não lembraria mais e revivo conversas há 

muito esquecidas lá nos grotões de minhas lembranças. Sabe 

aquela coisa de “minha vida daria um filme”? Todo mundo tem 

uma história para contar. Mas, como prefiro livros a películas, eu 

escrevo. 

Um amigo me disse, certo dia, que vivemos na memória dos 

outros, e que só morreremos de verdade quando ninguém mais

 lembrar da gente. Vivemos enquanto somos pensados. Existimos 

em nossas criações. Existimos em nossos filhos, em nossos netos, 

em nossos bisnetos...

Da mesma forma como Presley está vivo em sua música e 

Michelangelo em seus afrescos. Um autor vive em sua obra. Érico 

Veríssimo, por exemplo, renasce sempre que alguém abre e lê um 

livro seu.

Considero que todo livro fechado carrega em si um tanto d

tristeza, com suas ideias aprisionadas, seus romances esmaecidos, 

seus heróis enclausurados. Por isso eu desapego. Empresto, 

presenteio. Livro é para ser lido, é sua razão de ser, de existir. 

Tente. Além de uma boa história pessoal desejando ser contada, 

deve haver aí, com você, um livro querendo alçar voo, esperando 

apenas um empurrãozinho seu. Liberta-o. E liberte-se!
   




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Bzzzz...


Publicado no DP de 3 de setembro de 2014
Publicado no Cruzeiro do Vale em 12/09/14


- Pai, o que é abelha?

- Abelha, minha filha? Deixovê...

 Ah! Foi um inseto que viveu há

 tempos atrás.

- Junto com os dinossauros?

- Não, minha filha. Não faz 

taaaanto tempo assim. Faz uns

 cinquenta anos. Ainda deve ter

 uma ou duas abelhinhas solitárias

 voando por aí. Talvez na África.

- E o que elas faziam, pai?

- As abelhinhas? Faziam mel.

- Tipo mel Karo?

- Sim, tipo esse, só que muito

 mais gostoso, natural e benéfico 

à saúde. Agora vai brincar que 

tenho que achar uns gafanhotos

 para o almoço.

Este hipotético diálogo talvez

seja impossível mesmo em um

futuro  próximo, porque se 

restarem apenas uma ou duas 

abelhas voando pelo continente 

africano a humanidade há muito 

terá desaparecido. Ou, por outra,

 não será a mesma como a 

conhecemos hoje, dificilmente

haverá sequer gafanhotos

para comer.


Li, recentemente, que se as abelhas 

sumirem do planeta cerca 80% da vida, 

inclusive a raça humana, sucumbirá. 

Atribui-se a Einstein a seguinte frase: “Se

 as abelhas desaparecerem da face da terra,a 

humanidade terá apenas mais quatro anos de 

existência”. Não sei se tanto, mas o assunto

 é sério. Escrevi no Google “abelhas em 

extinção” e surgiram diversos links a 

respeito do assunto. Fiquei sabendo que a 

principal causa do fenômeno catastrófico é o

 uso abusivo de pesticidas em nossas 

lavouras. Principal, mas não único. O

 ataque de vespas predatórias também 

contribui para a diminuição drástica das 


colmeias.


Já lhes falei sobre o morro rochoso que 

priva a minha cozinha de sol. Esses dias o 


meu vizinho pagou um sujeito com 

fama de alpinista pra roçar a vegetação do 

morro. Deixou-o na pedra. Imediatamente

 minha casa foi invadida por aranhas, cobras


 e abelhas que, perdendo seu habitat,


 tornaram-se criaturas sem teto.


Os governos de alguns países europeus estão 

instruindo a população a tomar algumas

 medidas para evitar o agravamento desta

 situação, tais como cultivar flores e não

 cortar grama com muita frequência. 

Percebe-se claramente que este é um problema 

mundial.


Esta semana encontrei em um posto de gasolina

 da BR470 um argentino cuja missão era salvar


 as abelhas da extinção. Perguntei por que 


ele não estava fazendo esse trabalho em seu 

país, já que lá também deve haver esse tipo 

de ocorrência. Há, ele me confirmou. Porém, 

na Argentina, nada, com exceção da saúde

 pública, funciona, enquanto que aqui no


 Brasil a preocupação com o meio ambiente é


 latente e real. Depois ele subiu na sua 


velha e desbotada minivan carregada com 


caixas de abelha, deu partida no motor e 


gritou pela janela antes de pegar a estrada: 


Se acaso el Brasil cuidase de sus enfermos y deteniera a los 


delincuentes, éste sería el mejor lugar para vivirse
.”. 


Pode ser que, pelo menos, as abelhas se 


salvem.



Google Imagens



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

E Se...

 Publicado no Diário Popular em 19 de agosto

Meus amigos vivem observando: “tu te preocupas

 demais”. Fazer o quê? Sou assim, apesar de me

 considerar um cara positivo e otimista. Tendo a 

ponderar sobre os percalços, o tal do “e se?!”.

 Normalmente não acontece nada e reconheço certo 

exagero de minha parte. Cismas, apenas. Ando dentro da

 lei. De Murphy!  Meus amigos, quem sabe?!, talvez

 tenham razão.


Como agora: o pessoal resolveu queimar a tralha no

 pátio. Sobras de madeira que não servem pra nada,

 alguns papéis sem importância, restos de embalagens.

 Uma fogueira modesta. Riscaram o fósforo, assistiram o

 crescer das chamas e foram embora. Tentei 

argumentar: “Mas, e se...”. “Ah, tu te preocupas 

demais.” Eu também preciso sair, mas e esse fogo? 

Parece controlado, mas, assim, no meio do pasto, pode 

se espalhar. E tem aquele monte de latas de tinta. Tinta 

é inflamável, certo? E se tiver um restinho em algumas

 delas? Têm latas fechadas, nem dá pra ver se estão

 mesmo vazias.  Estamos no inverno, o pasto é 

geralmente úmido nessa época do ano, mas e se não 

estiver úmido o suficiente para evitar que as chamas se 

alastrem? “Tu te preocupas demais”, e foram embora.


Separada por uma cerca decadente está a loja vizinha,

 uma revenda de carros usados. Calculo, por cima, uns 50

 veículos ao relento. Deve ter ainda galões de óleo, 

pneus velhos, sobras de combustível. E se o fogo passar

 pra lá da cerca?


Tenho que sair ou perderei meu compromisso. Olho para

 loja de carros, olho para o relógio, olho para o fogo. A

 fumaça branca está indo lá pros lados da rodovia. E se

 prejudicar a visibilidade dos motoristas? Pode até causar

 algum acidente, essa é a hora em que todos estão

 voltando pra casa, um movimento só. Acho que nem é

 permitido queimar coisas perto da rodovia. E se a

 prefeitura ou outro órgão do governo vier multar?


No entanto, é bonito! O fogo tem lá o seu charme. 

Sempre o achei fascinante, hipnótico, ele e as sombras

 produzidas por suas chamas bruxuleantes. Imagine o

 mundo sem fogo. Impossível! Controlar o fogo fez toda a

 diferença na evolução da nossa espécie. Sol.

 Sobrevivência.


Lembro de acampamento, luau, violão, paquera. Fogo

 faz lembrar festa junina, quadrilha, pé de moleque.

 Picanha no disco de arado, pescaria, queima de tijolos.

 Fogo lembra lareira, vinho, fondue, romance! Sou um 

cara positivo, pra frente! Penso em coisas boas. Como a 

festa de São João que meus pais e seus amigos fizeram na

 nossa rua quando eu ainda era criança. Uma fogueira de 

doze metros, casamento da roça, forró, amendoim, 

quentão, busca-pé rabeando pelo chão atrás da molecada

 e fogos de artifício riscando céu feito... lata de tinta!!!


Quando a terceira decolou aterrissando dentro do pátio

 da loja de carros eu abandonei meus devaneios e corri 

para encher uns baldes d’água. 


 Google Imagens
                                                                    Google Imagens



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Jeitinho Exportação

Publicado no Cruzeiro do Vale em 26 de julho
             Publicado no Diário Popular em 4 de agosto


        chegaram em um desses carros de luxo, tipo SUV.

 Estacionaram sobre o retângulo pintado de azul com 

bordas brancas a um metro da porta de acesso ao

 shopping. Quatro pessoas desceram do veículo – dois homens

 e duas mulheres. Nenhuma gestante. Nenhum idoso ou 

deficiente.


- Gostou do carro? – perguntou um dos homens, bem vestido 

confiante, notando que eu olhava interessado para eles.

- Sim, é bonito – respondi, - meu primo tem um desses, só que 

o dele não vem com permissão para estacionar em vaga

especial.

- É que o meu é modelo novo, mais completo – disse o cara

 abraçando uma das mulheres, tão bonita e elegante quanto

sua amiga, que sorriu divertida e até piscou um olho verde

 e delineado quando  passaram por mim fazendo vento e

 deixando um perfume agradável. Fiquei observando enquanto

 entravam pela porta automática, e a última coisa que vi foi o

 homem que falou comigo dar um tapa no glúteo da mulher

 que ainda sorria, até que sumiram dentro do shopping.


Havia muitas vagas livres àquela hora no estacionamento,

 inclusive vagas especiais. É horário de almoço e todos querem

 estacionar perto da porta para ganhar um tempinho extra,

porém ocupar uma vaga que é por lei destinada a atender 

usuários com algum tipo de necessidade especial é o mesmo 

que estacionar encostado a um hidrante só porque não há

 nenhum incêndio ocorrendo naquele momento. 

Durante a Copa do Mundo surgiram diversas listas sobre

 curiosidades que foram divulgadas, principalmente, nas mídias

digitais. Lista dos melhores pratos provados e aprovados pelos

estrangeiros, lista dos melhores hotéis, lista dos melhores isso e

 dos melhores aquilo. Uma, em particular, chamou bastante

 atenção: oito hábitos e costumes que os turistas gostariam de 

importar para seu país. Um deles é o tão nosso Jeitinho

 Brasileiro. Não sei se estacionar em vaga imprópria pode ser 

considerado como tal, afinal normas de

 trânsito são desrespeitadas em todas as partes do mundo, mas 

parece que o jeitinho está institucionalizado como patrimônio 

público nacional e já seduz admiradores mundo afora.


Tem aquela máxima: “se queres conhecer o caráter de

 um homem, dê poder a ele”. Muitos se sentem poderosos atrás

 de um volante. Embora quatro pessoas estivessem

 naquele veículo a decisão de onde estacionar foi do 

motorista; sua escolha pode afetar a vida de muitas pessoas, 

tanto das que lhe acompanham quanto das que 

eventualmenteno caso aqui ilustrado, possam precisar da 

vaga por legítimo direito.


    Mas se aquele pessoal fazia uso do jeitinho brasileiro, 

pelo menos praticava também outros hábitos tipo exportação 

da curiosa lista: a higiene, a carona, o abraço e o almoço.

 Google Imangens
 Google Imagens
Google Imagens




terça-feira, 8 de julho de 2014

Dolores

  Publicado no Diário Popular no dia 11 de julho de 2014.




Quebrei a perna na última pescaria em que

 fui. Eu, que nem sei pescar.  Fui pra tocar
violão à beira do fogo e curtir a

 natureza em companhia dos amigos. Voltei na cachorreira de uma 

velha Chevrolet Caravan, com os paus e cordas da barraca

 imobilizando o ferimento em uma tala improvisada.

Depois de viajar 60 km pela madrugada, cheirando a fumaça,

 cheguei ao hospital. A enfermeira, orientada previamente por meu

 médico e amigo Dr. João Ivan, me aguardava com maca e cobertor.

 – O doutor mandou fazer um raio-x – disse ela, - se estiver

 quebrada tens que internar. Nem precisava! Senti no momento do

 incidente os ossos se estilhaçando sob o quadríceps, e minutos

 depois a dor me atacando a qualquer movimento.

Dói bastante, quebrar ossos. Já fraturei alguns, nessa vida.

 Imagino o que passou Anderson Silva naquele chute desastrado na 

canela de Chris Weidman. Pode nem ter sentido muito na hora, por

 causa da adrenalina, do calor do combate e tal, mas instantes

 depois a dor deve ter lhe golpeado o organismo como um murro do

 Minotauro.


Dizem que a pior dor é a do parto. Mas, não sei. Gazes também

 podem chegar perto do insuportável. E dor de dente? Sobe

 latejando pela bochecha, atravessa nariz e olhos e finca lá no

 cérebro como uma estalactite de gelo.


Gelo, que também pode machucar. Sentir frio é uma manifestação da

 dor, e percebê-la garante nossa sobrevivência. Dor, de certa

 forma, é útil. Estima-se que cerca de 300 pessoas no mundo são

 imunes a qualquer tipo de dor. Uma delas é brasileira. Os pais

 desse brasiliense descobriram que havia alguma coisa errada com 

filho quando ele ainda era um bebê. Logo que nasceram os dentes

de leite, a criança dilacerou a própria língua sem notar. Hoje,

 com 18 anos, este jovem vive cercado de cuidados. Tem que

 controlar a temperatura do corpo (não sente frio e não sua com

 calor) e fazer exames com muito mais frequência do que a maioria

 das pessoas, e cada passo seu é registrado diariamente. Vida

 nada fácil, a desse garoto.

Mas nem toda dor é física. Há a dor da saudade, a dor de

 cotovelo, dor da perda, as dores da alma. A maioria delas,

 física ou não, passa. Algumas persistem, agarram-se ao coração

 como uma falsa-vinha, apertando dentro do peito. Remédio? O

 Tempo que, dizem, tudo cura. Quase sempre.

A dor que senti naquela distante pescaria passou. Se não dói 

mais, esquecemos. O cérebro esconde. É como olfato, ou paladar.

 Tente lembrar do gosto do morango. Sabemos que é ácido, mas não

 podemos sentir o sabor ou perfume da fruta apenas pensando nela.

 O que fica desta vida, realmente, são os bons momentos, os que

 podemos alcançar com o pensamento, momentos como aquele de tocar

 violão ao pé do fogo e curtir a natureza com amigos.



 Google Imagens
Google Imagens
Google Imagens