Pesquisar neste blog

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Serra não! (novo final)


Haroldo morreu aos 50. Coração. Parou de bater, sem ataque, sem dor nem nada, apenas parou de pulsar e Haroldo sucumbiu. Agora cadáver, Haroldo sacode dentro de um caixão na Kombi da família. Seu sepultamento será na cidadezinha distante algumas dezenas de quilômetros de onde viveu seus últimos anos. O cunhado dirige a perua com a viúva ao lado.

- Por que ele está nu dentro do caixão mesmo?

- Por causa desse calor infernal. Não queremos que ele apodreça antes de chegarmos no cemitério.

- Júlio!

- Mas é verdade.  Fique presa dentro de um caixão, pra você ver. Viajar sem roupa é melhor. Lá o pessoal da funerária irá vestí-lo.

- Tadinho do meu Dodô. Tão sozinho dentro daquele caixão, chacoalhando nessa Kombi velha. Vou lá pra traz lhe fazer companhia.

Depois de alguns minutos:

- Juliooooooo!

- Quié?

- Vem ver.

- Não posso,  estou dirigindo.

- Mas olha aqui, o meu Dodô

Júlio olha por cima do ombro e freia o furgão bruscamente. Alguém buzina enraivecido.

- Que isso, mulher, o que você fez!?

- Nada, ué!

- Como, nada? Por que então ele está desse jeito? Esse caixão parece um navio sem velas. O que fizestes, criatura?

- Nada, só dei um beijinho e ele ficou assim.  Está morto, não está? Não pensei que isso pudesse acontecer.

- Agora sei porque ele morreu enquanto vocês transavam. Faltou sangue no cérebro do coitado. Benzadeus, maninha. Fecha esse caixão e vem sossegar aqui na frente.

- Mas não dá, agora o caixão não fecha. Vem cá, Júlio, quam sabe se você forçar...

- Tá louca?! Eu que não mexo nisso. Deixa assim e vem pra cá, daqui a pouco deve murchar.

A mulher desce a tampa do caixão até onde dá e senta ao lado do motorista.

- Olha lá. Parece um piano de cauda.

- Parece mais uma arapuca.

- Será que tá doendo?

- Que doendo, maninha, ele está morto.

- Será? E se ele estiver vivo? Nunca soube de morto ter ereção.

- Nem eu. Vamos tirar uma foto e postar no Instagram?

- Não! ninguém vai fotografar meu Dodô nessa situação.

Perto do necrotério:

- O que faremos? Não podemos descer com ele assim, nesse estado.

- Quem sabe se você transar com ele o troço não volta ao normaL? Geralmente é o que acontece, pelo menos com os vivos.

- O que você acha que eu sou? Necrófila?

- Sei lá,  é teu marido. Em algumas civilizações isto é até normal.

- Júlio!

- Vai lá, deixa de ser boba. Já desse um beijinho mesmo.

- Não!

- Então vamos serrar. Tem uma serrinha ali na caixa de ferramentas. Sejamos rápido, estão todos nos esperando.

- Júlio, vai doer.

- E morto lá sente dor? A gente corta e estende a peça ao lado do corpo. Apesar de tudo deve caber.

Estacionaram a algumas quadras antes do cemitério e foram o dois pra trás da Kombi.

- Nossa, mana, como você aguentava?

- Mulher aguenta muita coisa, meu irmãozinho – suspira, com ar de saudade. – Pobre do meu Dodô, olha só a cara dele.

- Cara de defunto.

- Ajude-me aqui. Vamos tentar baixar isso.

- Olha, o Haroldo era legal, gostava dele e tal, mas isso é demais Eu que não boto minhas mãos nessa coisa. Vai você, segura que eu serro.

- Tá bem! Mas vai devagar pra não maxucar o coitado.

No primeiro vai e vem da lâmina Haroldo se levanta num pulo e grita:

- Serra não! Serra não!

Marcinha acorda assutada. Estica o braço pra acender a luz do abajur e olha para o marido:

- Que foi, benhê?! Sonhando com as eleições?

- Pior, Marcinha, pior - então ele conta o sonho. Tudinho.

Marcinha ouve com atenção. Depois dá um beijo no marido,  cosulta o relógio, boceja e apaga a luz.

- Benhê, já falei pra você guardar seus Viagras longe das Aspirinas. Agora volte a dormir.  Barco à vela, piano de calda. Humpf... té parece.

 
google imagens

Nenhum comentário:

Postar um comentário