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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Tizo e os 22



 Publicado no Diário Popular de 12 de Fevereiro de 2014

Quem diria! O Orkut vai muito bem, obrigado. Pelo menos é o que afirmam algumas matérias que circulam em informativos por aí. Seis milhões de brasileiros ainda gastam, em média, vinte e cinco minutos diários de seu tempo transitando pelas nem tão esquecidas páginas daquela que é considerada a primeira grande rede social. As vantagens do Orkut, segundo as tais matérias, são os fóruns e comunidades onde é possível debater sobre vários assuntos, enquanto que o Facebook, ainda segundo as reportagens, é mais utilizado para ostentação, exibicionismo e outras futilidades tais como divulgar cortes de cabelo e dotes culinários.
Lembro que, no Orkut, a gente usa uma frase que será exibida na página do nosso perfil, algo com um cartão de visitas. A minha, antes de deletar minha conta, era essa: Sou amigo dos meus irmãos e irmão dos meus amigos. Tenho muitos amigos, alguns do tipo que levanta na madrugada para ajudar a trocar o pneu do carro no meio do nada. Irmãos, tenho três. Sou da geração das famílias numerosas. Era normal, naqueles tempos.  Família grande é, geralmente, garantia de festas barulhentas e animadas, principalmente no fim de ano. Lembro dos Natais da minha infância, muitos tios, muitos primos, muitas crianças. Hoje é um pouco diferente. Um grande número de casais optam por um, no máximo dois filhos. Isso para não mencionar os casais que não querem saber de herdeiros. São os tempos modernos. Mas na casa da família do Tizo o Natal ainda é a moda antiga.
Sabe o Tizo? Mencionei essa cara no meu último texto. Pois o Tizo e seus irmãos, se resolverem jogar futebol, formam dois times. De campo! E ainda sobra um para apitar. Vinte e dois irmãos. Mas espere, fica mais interessante. Muitos desses irmãos casaram e tiveram filhos, e alguns tiveram filhos sem casar. O mais incrível: moram todos juntos. Uma antiga fazenda foi reformada para abrigar toda a grande família. É criança que não acaba mais. A maioria estuda na mesma escola, e em cada sala de aula tem dois ou três da família, todos bons alunos. Alguns deles têm o mesmo nome porque começou a faltar ideias para registrá-los, e a cada enchente na região eles reúnem a patota para uma contagem. Na casa todos deitam cedo, mas não é por disciplina. Ficam com medo de ficarem sem cama.
Tizo é um dos poucos irmãos que moram em outra residência. Nas festas de fim de ano ele mantém a tradição de montar cestas de presentes para as crianças da fazenda. No último Natal, quando chegou com dezenas de sacolas, bastou uma rápida olhada para a pequena multidão que se formou ao seu redor para perceber o problema. Do mesmo modo, uma quase centena de pequenos olhos somou as sacolas como um Rain Man nas mãos do Tizo. Logo ficou evidente que não haveria presentes para todos. Tizo, temendo o pior, balbuciou algumas desculpas e se mandou a tempo antes do linchamento iminente.
Assim é a família de Tizo. Você não a encontrará no Orkut e nem no álbum do Facebook. Estão ocupados demais jogando bola, brincando de pega-pega, soltando pandorga ou pescando nos córregos da fazenda. Bem como antigamente.

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