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terça-feira, 25 de março de 2014

Desígnios


Publicado no Diário Popular em 27 de março de 2014 e no Cruzeiro do Vale - SC em 2 de julho.

O restaurante não mudou muito desde a última vez em que estive aqui, há quatro anos. Não consigo reconhecer os garçons(nunca fui bom fisionomista), mas tenho certeza de que o uniforme é o mesmo. As mesas, com suas grandes cadeiras estofadas e toalhas de cores sóbrias, assim como o cardápio com capa de couro, são exatamente como me lembro. Pedi o mesmo prato que escolhi em janeiro de 2010: sanduíche Olímpico. Repeti também a bebida, um suco natural, porém feito em escala industrial, de goiaba.  Meu lanche chegou acompanhado dos primeiros acordes de Broadway Bossa Nova, de Dave Brubeck, e me perguntei se o pianista seria o mesmo que tocou uma canção do Pink Floyd naquela ocasião. Optei por uma mesa encostada no pilar revestido com marmorite negro, de modo que era impossível avistar o piano.

O salão estava com metade de suas mesas ocupadas. Alguns tomavam seu café da tarde em companhia de outras pessoas. Outros, como eu, comiam acompanhados apenas por seus pensamentos. Os meus enchiam a mesa e se esparramavam pelo chão. Pensava, entre outras coisas, na estranheza do fato de eu me encontrar neste restaurante depois de anos, neste cenário tão igual e tão familiar, cheio de lembranças (frequentei-o por quinze dias seguidos) álacres e singulares, apesar de carregadas com as preocupações naturais àquele momento. De forma incomum estou revivendo aqueles distantes dias, agora com sensações tão díspares e ofendidas.

(Insensatez, está tocando o pianista. Penso na feliz ideia de quem contratou um músico para tocar no restaurante deste hospital). Acho que foi Wood Allen quem disse: Para fazer Deus rir é só contar seus planos a Ele. Talvez tenha sido Deus que tenha me trazido a este lugar novamente, embora eu tivesse outros planos para esta semana, e duvido muito que Ele esteja rindo deles. Sei que nossos projetos Lhes são muito caros, mas muitas vezes precisamos deixar um pouco de lado as nossas vontades para atendermos a Seus desígnios. Por isso suporto, e não me queixo.



O musicista está executando agora uma peça que não conheço.Termino meu lanche, recolho meus pensamentos e vou pagar a conta. Do balcão do bar consigo divisar o piano e o pianista, o mesmo garoto magrelo e cabeludo que tocava na ocasião do nascimento da Marina. Elogiei o seu trabalho ao passar por ele com um quase inaudível “bela música”. Ele respondeu com um aceno de cabeça e um meio sorriso, mas duvido que tenha se lembrado de mim, mesmo que tenhamos conversado por alguns minutos sobre música naquele 2010. Compreende-se. Muita gente ocupou as mesas deste restaurante durante esses quatro anos. Visitantes, acompanhantes, médicos e até pacientes. Muitos ouviram a música deste piano enquanto amainavam a fome, organizavam pensamentos ou simplesmente, como eu, conversavam com Deus. Como escreveu Cervantes na fala de Sancho: Onde há música não pode haver coisa má.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Mistérios da Humanidade

Publicado no Diário Popular de 13 de março de 2014


A humanidade é fascinada por mistérios da humanidade. O Segredo de Fátima, as Pirâmides do Egito, o Continente Perdido, o Triângulo das Bermudas, as Construções de Stonehenge, as Linhas de Nazca, a Área 51, para citar alguns dos grandes mistérios até hoje não desvendados e que suscitam entre os homens as mais variadas opiniões e teorias. Muitos estudiosos dedicaram, e ainda dedicam, boa parte da sua vida pesquisando esses fenômenos em busca de uma resposta definitiva. Quando a encontrarem eles deverão optar entre divulgar tais resultados ou enterrá-los para sempre no abismo dos segredos indecifráveis. Pelo bem da humanidade.


Estavam no bar do alemão Anselm, ao lado do Centro Internacional de Pesquisas. Cinco cientistas de diferentes nacionalidades. Biólogos, químicos e físicos - um deles também era filósofo. Falavam alto, riam, brindavam a todo o momento. Já meio alegres de cerveja, pediram frango à passarinho e uma porção de ovos de codorna (queriam ovos de galinha, em conserva, mas não constavam no cardápio). Exigiram: os ovos deveriam ser servidos primeiro. Por algum motivo que o garçom não entendeu, todos gargalharam muito com essa observação.  E brindaram. 


- Cheers


- Prost


- Na zdravi


- Saúde


O inglês levantou o copo com os dedos engraxados de fritura e bradou: - A toast to eggs! - Todos deram vivas. Mais brindes.

Essa pequena e ruidosa comemoração marcava o fim de longos e exaustivos anos de estudos, pesquisa essa começada há décadas por outros cientistas ao redor do mundo. Alguns desses estudiosos, infelizmente, morreram antes de conhecerem o resultado final. Porém, restou a certeza de que seus esforços, suas noites insones, litros de café forte ingeridos, não foram em vão. No dia seguinte, passada a ressaca e quando seus jalecos fossem jogados na máquina de lavar para serem substituídos por costumes feitos sob encomenda, os cinco reunir-se-iam em frente às câmeras das mais importantes emissoras de TV do mundo para sepultar um dos maiores mistérios da humanidade. Não fariam declarações levianas ou infundadas. Tinham provas e evidências, dados irrefutáveis do que pretendem afirmar em rede nacional: o ovo surgiu antes da galinha.


- E quem chocou esse ovo, doutor, foi o jacaré?


Todos olharam surpresos para o garçom que trazia uma porção de frango empanado e ovos poche. Após um quase palpável silêncio, os cinco pesquisadores pediram a conta, juntaram suas anotações e voltaram para o Centro de Pesquisas, onde estão até hoje.

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