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terça-feira, 22 de abril de 2014

Um Ladrão Pra Chamar de Seu



Publicado no Diário Popular, Pelotas - RS, de 23 de abril de 2014 (Dia Internacional do Livro) e no jornal 
Cruzeiro do Vale - Gaspar - SC


Quando Pedro recolheu a carteira no meio da lama sua preocupação era uma só: devolvê-la ao dono. Fez o comunicado diretamente no sistema de som do Parque de Rodeios, lotado àquela hora, depois de verificar o nome do portador nos documentos de identidade. Em menos de um minuto um sujeito apareceu em uma motocicleta dizendo que a carteira pertencia a seu primo. Pedro sugeriu que esperassem por ele, pois ali continha uma considerável soma em dinheiro. Mesmo sem contar, Pedro estimou haver algo perto de um salário. Não esperaram muito e logo o dono da carteira apareceu, também de motocicleta. Agradeceu muito, ofereceu cinquenta reais em gratificação – que Pedro recusou – e foi embora aliviado, mesmo não tendo percebido que a tinha perdido até ouvir seu nome nos auto-falantes.


Sei bem o que é perder documentos e dinheiro, mas desconheço a alegria de encontrá-los intactos. Mas, se não recuperei minhas carteiras ilesas quando as perdi (e já perdi muitas) pelo menos meu celular me foi devolvido. Esqueci-o numa sexta-feira dentro de um táxi-lotação em Porto Alegre. Liguei para o meu próprio aparelho e o rapaz que o encontrou disse que ia deixá-lo desligado porque a bateria estava terminando, e que eu poderia pegá-lo na segunda-feira na portaria do prédio onde ele morava, pois sairia cedo de casa. Bom sujeito, a quem nem tive oportunidade de agradecer pessoalmente.


Bombou na internet e jornais de todo o Brasil (e até de fora do país) o caso do segurança de São Leopoldo que achou 600 reais juntamente com um boleto bancário. O rapaz, sem pensar duas vezes, quitou o boleto e encontrou a dona do dinheiro depois de procurá-la pelas redes sociais. O caso, diante de tanta repercussão positiva, acabou na TV em rede nacional com a participação ao vivo dos envolvidos. Precisava? Sim! Exemplos como esse devem ser mostrados e comemorados em meio a tanta roubalheira e perversão encontradas em nossa sociedade. Fosse, talvez, em Helsinki, na Finlândia, cidade campeã de honestidade naqueles testes das carteiras perdidas, onde 11 em 12 são devolvidas, o caso não chamaria a atenção de ninguém. Mas aqui no Brasil, onde valorizam tanto a malandragem e o jeitinho brasileiro, onde muita gente pensa que achado não é roubado, um ato carregado de bom-caratismo, honestidade e – eis o inusitado neste evento tendo em vista que o rapaz foi ao guichê quitar o boleto - gentileza é, sem dúvida, digno de manchete.


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Já comentei aqui nestas páginas que tive três carros roubados. Falávamos sobre isso num jantar entre amigos. Dos doze comensais presentes, seis foram assaltados. Ou seja, esta pequena amostragem indica exageradamente que, possivelmente, há em nosso país um criminoso para cada dois habitantes. Eu, provavelmente, acabei usando os ladrões de alguém.


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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Pai Com Açucar



Publicado no Diário Popular de 11 de abril de 2014 

Sobrevoando a belíssima orla catarinense lembrei-me de quando voei pela primeira vez, criança ainda. Meu voo inaugural foi também no litoral, porém gaúcho, mais precisamente na praia do Cassino. A paisagem não era assim tão bonita, mas a sensação era infinitamente mais incrível, pois eu voava sem avião. Sim, leitores, eu voava sem avião! Era só prender uma toalha de banho nos ombros, à guisa de capa, e lá íamos nós – eu e meus irmãos – voando pelos céus do jardim de nossa casa de praia. Só que não. O verdadeiro super-homem não era nenhuma de nós crianças. O homem de aço era, mesmo, meu pai.

A película Super-Homem – O Filme estreou em 1978, mas acho que a assistimos no ano seguinte. Saímos do Cine Cassino impressionados com aquele super-herói que vestia cuecas por cima das calças. Durante a semana inteirinha passávamos nos braços do pai voando pelo pátio e perseguindo Lex Luthor. Meu pai me girava no ar, a capa atoalhada esvoaçando. Depois fazia o mesmo com meus manos.

Antes de voar sem turbina eu fui lutador de boxe. Assisti Rock: Um Lutador naquele mesmo cinema. E também, depois de ver o filme, eu era Balboa. Foi a vez do pai encarnar Apollo Creed.

Seu Darlan foi meu professor na escola. Educação física. Dirigia, naqueles tempos, um Ford Corcel branco, daqueles quadradinhos. Antes das aulas a gurizada se reunia lá em casa para aproveitar a carona até o ginásio. Tínhamos até um time: Corcel Futebol Clube. Foi neste mesmo carro que eu e meus irmãos aprendemos as primeiras noções de dirigibilidade. Sentados no colo do meu pai a gente pilotava pelas areias desertas da praia do Cassino, sempre no final de tarde para evitarmos o risco de atropelamento. Hoje não é mais assim. Os jovens completam 18 anos e precisam pagar uma soma considerável para aprender a dirigir em uma autoescola, onde muitas vezes assumem um volante pela primeira vez na vida. Nós tivemos sorte, meus irmãos e eu.

No entanto, voar, dirigir, boxear, pegar jacaré nas ondas do Cassino, tocar acordeão, fazer fogo, pescar e empinar pipa não foram as coisas mais importantes que aprendemos com nosso pai. Embora tenha sido meu professor no colégio suas maiores lições foram ensinadas dentro de casa. Lá aprendemos sobre o amor, sobre a amizade, sobre o respeito. Com meu pai aprendemos a ter paciência, a sermos tolerantes, a sermos generosos, a sermos humanos. Com meu pai aprendi a ser pai, e agora, com ele, estou cursando Como Ser Um Avô Exemplar. Ainda não chegou a minha vez de ser pai com açúcar, mas quando chegar a hora acho que saberei direitinho como agir com meus futuros netos. Graças a ti, pai. Feliz Aniversário!