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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Jeitinho Exportação

Publicado no Cruzeiro do Vale em 26 de julho
             Publicado no Diário Popular em 4 de agosto


        chegaram em um desses carros de luxo, tipo SUV.

 Estacionaram sobre o retângulo pintado de azul com 

bordas brancas a um metro da porta de acesso ao

 shopping. Quatro pessoas desceram do veículo – dois homens

 e duas mulheres. Nenhuma gestante. Nenhum idoso ou 

deficiente.


- Gostou do carro? – perguntou um dos homens, bem vestido 

confiante, notando que eu olhava interessado para eles.

- Sim, é bonito – respondi, - meu primo tem um desses, só que 

o dele não vem com permissão para estacionar em vaga

especial.

- É que o meu é modelo novo, mais completo – disse o cara

 abraçando uma das mulheres, tão bonita e elegante quanto

sua amiga, que sorriu divertida e até piscou um olho verde

 e delineado quando  passaram por mim fazendo vento e

 deixando um perfume agradável. Fiquei observando enquanto

 entravam pela porta automática, e a última coisa que vi foi o

 homem que falou comigo dar um tapa no glúteo da mulher

 que ainda sorria, até que sumiram dentro do shopping.


Havia muitas vagas livres àquela hora no estacionamento,

 inclusive vagas especiais. É horário de almoço e todos querem

 estacionar perto da porta para ganhar um tempinho extra,

porém ocupar uma vaga que é por lei destinada a atender 

usuários com algum tipo de necessidade especial é o mesmo 

que estacionar encostado a um hidrante só porque não há

 nenhum incêndio ocorrendo naquele momento. 

Durante a Copa do Mundo surgiram diversas listas sobre

 curiosidades que foram divulgadas, principalmente, nas mídias

digitais. Lista dos melhores pratos provados e aprovados pelos

estrangeiros, lista dos melhores hotéis, lista dos melhores isso e

 dos melhores aquilo. Uma, em particular, chamou bastante

 atenção: oito hábitos e costumes que os turistas gostariam de 

importar para seu país. Um deles é o tão nosso Jeitinho

 Brasileiro. Não sei se estacionar em vaga imprópria pode ser 

considerado como tal, afinal normas de

 trânsito são desrespeitadas em todas as partes do mundo, mas 

parece que o jeitinho está institucionalizado como patrimônio 

público nacional e já seduz admiradores mundo afora.


Tem aquela máxima: “se queres conhecer o caráter de

 um homem, dê poder a ele”. Muitos se sentem poderosos atrás

 de um volante. Embora quatro pessoas estivessem

 naquele veículo a decisão de onde estacionar foi do 

motorista; sua escolha pode afetar a vida de muitas pessoas, 

tanto das que lhe acompanham quanto das que 

eventualmenteno caso aqui ilustrado, possam precisar da 

vaga por legítimo direito.


    Mas se aquele pessoal fazia uso do jeitinho brasileiro, 

pelo menos praticava também outros hábitos tipo exportação 

da curiosa lista: a higiene, a carona, o abraço e o almoço.

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terça-feira, 8 de julho de 2014

Dolores

  Publicado no Diário Popular no dia 11 de julho de 2014.




Quebrei a perna na última pescaria em que

 fui. Eu, que nem sei pescar.  Fui pra tocar
violão à beira do fogo e curtir a

 natureza em companhia dos amigos. Voltei na cachorreira de uma 

velha Chevrolet Caravan, com os paus e cordas da barraca

 imobilizando o ferimento em uma tala improvisada.

Depois de viajar 60 km pela madrugada, cheirando a fumaça,

 cheguei ao hospital. A enfermeira, orientada previamente por meu

 médico e amigo Dr. João Ivan, me aguardava com maca e cobertor.

 – O doutor mandou fazer um raio-x – disse ela, - se estiver

 quebrada tens que internar. Nem precisava! Senti no momento do

 incidente os ossos se estilhaçando sob o quadríceps, e minutos

 depois a dor me atacando a qualquer movimento.

Dói bastante, quebrar ossos. Já fraturei alguns, nessa vida.

 Imagino o que passou Anderson Silva naquele chute desastrado na 

canela de Chris Weidman. Pode nem ter sentido muito na hora, por

 causa da adrenalina, do calor do combate e tal, mas instantes

 depois a dor deve ter lhe golpeado o organismo como um murro do

 Minotauro.


Dizem que a pior dor é a do parto. Mas, não sei. Gazes também

 podem chegar perto do insuportável. E dor de dente? Sobe

 latejando pela bochecha, atravessa nariz e olhos e finca lá no

 cérebro como uma estalactite de gelo.


Gelo, que também pode machucar. Sentir frio é uma manifestação da

 dor, e percebê-la garante nossa sobrevivência. Dor, de certa

 forma, é útil. Estima-se que cerca de 300 pessoas no mundo são

 imunes a qualquer tipo de dor. Uma delas é brasileira. Os pais

 desse brasiliense descobriram que havia alguma coisa errada com 

filho quando ele ainda era um bebê. Logo que nasceram os dentes

de leite, a criança dilacerou a própria língua sem notar. Hoje,

 com 18 anos, este jovem vive cercado de cuidados. Tem que

 controlar a temperatura do corpo (não sente frio e não sua com

 calor) e fazer exames com muito mais frequência do que a maioria

 das pessoas, e cada passo seu é registrado diariamente. Vida

 nada fácil, a desse garoto.

Mas nem toda dor é física. Há a dor da saudade, a dor de

 cotovelo, dor da perda, as dores da alma. A maioria delas,

 física ou não, passa. Algumas persistem, agarram-se ao coração

 como uma falsa-vinha, apertando dentro do peito. Remédio? O

 Tempo que, dizem, tudo cura. Quase sempre.

A dor que senti naquela distante pescaria passou. Se não dói 

mais, esquecemos. O cérebro esconde. É como olfato, ou paladar.

 Tente lembrar do gosto do morango. Sabemos que é ácido, mas não

 podemos sentir o sabor ou perfume da fruta apenas pensando nela.

 O que fica desta vida, realmente, são os bons momentos, os que

 podemos alcançar com o pensamento, momentos como aquele de tocar

 violão ao pé do fogo e curtir a natureza com amigos.



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