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terça-feira, 8 de julho de 2014

Dolores

  Publicado no Diário Popular no dia 11 de julho de 2014.




Quebrei a perna na última pescaria em que

 fui. Eu, que nem sei pescar.  Fui pra tocar
violão à beira do fogo e curtir a

 natureza em companhia dos amigos. Voltei na cachorreira de uma 

velha Chevrolet Caravan, com os paus e cordas da barraca

 imobilizando o ferimento em uma tala improvisada.

Depois de viajar 60 km pela madrugada, cheirando a fumaça,

 cheguei ao hospital. A enfermeira, orientada previamente por meu

 médico e amigo Dr. João Ivan, me aguardava com maca e cobertor.

 – O doutor mandou fazer um raio-x – disse ela, - se estiver

 quebrada tens que internar. Nem precisava! Senti no momento do

 incidente os ossos se estilhaçando sob o quadríceps, e minutos

 depois a dor me atacando a qualquer movimento.

Dói bastante, quebrar ossos. Já fraturei alguns, nessa vida.

 Imagino o que passou Anderson Silva naquele chute desastrado na 

canela de Chris Weidman. Pode nem ter sentido muito na hora, por

 causa da adrenalina, do calor do combate e tal, mas instantes

 depois a dor deve ter lhe golpeado o organismo como um murro do

 Minotauro.


Dizem que a pior dor é a do parto. Mas, não sei. Gazes também

 podem chegar perto do insuportável. E dor de dente? Sobe

 latejando pela bochecha, atravessa nariz e olhos e finca lá no

 cérebro como uma estalactite de gelo.


Gelo, que também pode machucar. Sentir frio é uma manifestação da

 dor, e percebê-la garante nossa sobrevivência. Dor, de certa

 forma, é útil. Estima-se que cerca de 300 pessoas no mundo são

 imunes a qualquer tipo de dor. Uma delas é brasileira. Os pais

 desse brasiliense descobriram que havia alguma coisa errada com 

filho quando ele ainda era um bebê. Logo que nasceram os dentes

de leite, a criança dilacerou a própria língua sem notar. Hoje,

 com 18 anos, este jovem vive cercado de cuidados. Tem que

 controlar a temperatura do corpo (não sente frio e não sua com

 calor) e fazer exames com muito mais frequência do que a maioria

 das pessoas, e cada passo seu é registrado diariamente. Vida

 nada fácil, a desse garoto.

Mas nem toda dor é física. Há a dor da saudade, a dor de

 cotovelo, dor da perda, as dores da alma. A maioria delas,

 física ou não, passa. Algumas persistem, agarram-se ao coração

 como uma falsa-vinha, apertando dentro do peito. Remédio? O

 Tempo que, dizem, tudo cura. Quase sempre.

A dor que senti naquela distante pescaria passou. Se não dói 

mais, esquecemos. O cérebro esconde. É como olfato, ou paladar.

 Tente lembrar do gosto do morango. Sabemos que é ácido, mas não

 podemos sentir o sabor ou perfume da fruta apenas pensando nela.

 O que fica desta vida, realmente, são os bons momentos, os que

 podemos alcançar com o pensamento, momentos como aquele de tocar

 violão ao pé do fogo e curtir a natureza com amigos.



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