Pesquisar neste blog

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

E Se...

 Publicado no Diário Popular em 19 de agosto

Meus amigos vivem observando: “tu te preocupas

 demais”. Fazer o quê? Sou assim, apesar de me

 considerar um cara positivo e otimista. Tendo a 

ponderar sobre os percalços, o tal do “e se?!”.

 Normalmente não acontece nada e reconheço certo 

exagero de minha parte. Cismas, apenas. Ando dentro da

 lei. De Murphy!  Meus amigos, quem sabe?!, talvez

 tenham razão.


Como agora: o pessoal resolveu queimar a tralha no

 pátio. Sobras de madeira que não servem pra nada,

 alguns papéis sem importância, restos de embalagens.

 Uma fogueira modesta. Riscaram o fósforo, assistiram o

 crescer das chamas e foram embora. Tentei 

argumentar: “Mas, e se...”. “Ah, tu te preocupas 

demais.” Eu também preciso sair, mas e esse fogo? 

Parece controlado, mas, assim, no meio do pasto, pode 

se espalhar. E tem aquele monte de latas de tinta. Tinta 

é inflamável, certo? E se tiver um restinho em algumas

 delas? Têm latas fechadas, nem dá pra ver se estão

 mesmo vazias.  Estamos no inverno, o pasto é 

geralmente úmido nessa época do ano, mas e se não 

estiver úmido o suficiente para evitar que as chamas se 

alastrem? “Tu te preocupas demais”, e foram embora.


Separada por uma cerca decadente está a loja vizinha,

 uma revenda de carros usados. Calculo, por cima, uns 50

 veículos ao relento. Deve ter ainda galões de óleo, 

pneus velhos, sobras de combustível. E se o fogo passar

 pra lá da cerca?


Tenho que sair ou perderei meu compromisso. Olho para

 loja de carros, olho para o relógio, olho para o fogo. A

 fumaça branca está indo lá pros lados da rodovia. E se

 prejudicar a visibilidade dos motoristas? Pode até causar

 algum acidente, essa é a hora em que todos estão

 voltando pra casa, um movimento só. Acho que nem é

 permitido queimar coisas perto da rodovia. E se a

 prefeitura ou outro órgão do governo vier multar?


No entanto, é bonito! O fogo tem lá o seu charme. 

Sempre o achei fascinante, hipnótico, ele e as sombras

 produzidas por suas chamas bruxuleantes. Imagine o

 mundo sem fogo. Impossível! Controlar o fogo fez toda a

 diferença na evolução da nossa espécie. Sol.

 Sobrevivência.


Lembro de acampamento, luau, violão, paquera. Fogo

 faz lembrar festa junina, quadrilha, pé de moleque.

 Picanha no disco de arado, pescaria, queima de tijolos.

 Fogo lembra lareira, vinho, fondue, romance! Sou um 

cara positivo, pra frente! Penso em coisas boas. Como a 

festa de São João que meus pais e seus amigos fizeram na

 nossa rua quando eu ainda era criança. Uma fogueira de 

doze metros, casamento da roça, forró, amendoim, 

quentão, busca-pé rabeando pelo chão atrás da molecada

 e fogos de artifício riscando céu feito... lata de tinta!!!


Quando a terceira decolou aterrissando dentro do pátio

 da loja de carros eu abandonei meus devaneios e corri 

para encher uns baldes d’água. 


 Google Imagens
                                                                    Google Imagens



Nenhum comentário:

Postar um comentário