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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Existimos enquanto pensamos



Publicado no Cruzeiro do Vale - Gaspar - SC   em 8 de outubro; e ni Diário Popular - Pelotas - RS em 11 de outubro.

A luz branca do quarto não lhe dizia muita coisa. Não avisava, por 

exemplo, se era noite ou se era dia. Saberia, se as janelas 

estivessem abertas ou se, pelo menos, as enxergasse. Fechou os

 olhos contra a vontade por alguns segundos, as pálpebras

 estavam meladas e pesavam toneladas. Uma estranha sensação 

percorria o seu corpo, como se envolto em líquido. Procurou o 

peito com as mãos, mas elas não se moveram.


- Fique quieto – ouviu, - ou posso te cortar.


Pensou em perguntar onde estava, como fazem nos filmes em 

situações como aquela. Porém, ele sabia muito bem onde, apenas 

não sabia “por que” e nem “quando”. Talvez fosse domingo, ou 

sábado. Foi na noite passada que bebera uma cerveja no bar ao 

lado da faculdade, com aquele sujeito que sonha em ser um 

desenhista famoso, enquanto esperava por seus irmãos? Neste 

caso não poderia ser domingo, pois tem certeza de que o bar só 

abre em noites de aula. Na verdade podia ser qualquer dia da

 semana, qualquer mês do ano, e podia ser manhã, tarde ou noite,

 pois a luz branca do quarto lhe dizia apenas uma coisa: que 

estava em um hospital.



Estou escrevendo minhas memórias. Além deste trecho aí de cima, 

que é o primeiro parágrafo do meu livreto particular, já escrevi 

umas 30 páginas. É um ótimo exercício de escrita. E de memória.

 Digito sem ordem cronológica. Vou lembrando e passando para a 

tela brilhante do monitor. É legal porque, de repente, me deparo 

com rostos que achei que não lembraria mais e revivo conversas há 

muito esquecidas lá nos grotões de minhas lembranças. Sabe 

aquela coisa de “minha vida daria um filme”? Todo mundo tem 

uma história para contar. Mas, como prefiro livros a películas, eu 

escrevo. 

Um amigo me disse, certo dia, que vivemos na memória dos 

outros, e que só morreremos de verdade quando ninguém mais

 lembrar da gente. Vivemos enquanto somos pensados. Existimos 

em nossas criações. Existimos em nossos filhos, em nossos netos, 

em nossos bisnetos...

Da mesma forma como Presley está vivo em sua música e 

Michelangelo em seus afrescos. Um autor vive em sua obra. Érico 

Veríssimo, por exemplo, renasce sempre que alguém abre e lê um 

livro seu.

Considero que todo livro fechado carrega em si um tanto d

tristeza, com suas ideias aprisionadas, seus romances esmaecidos, 

seus heróis enclausurados. Por isso eu desapego. Empresto, 

presenteio. Livro é para ser lido, é sua razão de ser, de existir. 

Tente. Além de uma boa história pessoal desejando ser contada, 

deve haver aí, com você, um livro querendo alçar voo, esperando 

apenas um empurrãozinho seu. Liberta-o. E liberte-se!
   




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Bzzzz...


Publicado no DP de 3 de setembro de 2014
Publicado no Cruzeiro do Vale em 12/09/14


- Pai, o que é abelha?

- Abelha, minha filha? Deixovê...

 Ah! Foi um inseto que viveu há

 tempos atrás.

- Junto com os dinossauros?

- Não, minha filha. Não faz 

taaaanto tempo assim. Faz uns

 cinquenta anos. Ainda deve ter

 uma ou duas abelhinhas solitárias

 voando por aí. Talvez na África.

- E o que elas faziam, pai?

- As abelhinhas? Faziam mel.

- Tipo mel Karo?

- Sim, tipo esse, só que muito

 mais gostoso, natural e benéfico 

à saúde. Agora vai brincar que 

tenho que achar uns gafanhotos

 para o almoço.

Este hipotético diálogo talvez

seja impossível mesmo em um

futuro  próximo, porque se 

restarem apenas uma ou duas 

abelhas voando pelo continente 

africano a humanidade há muito 

terá desaparecido. Ou, por outra,

 não será a mesma como a 

conhecemos hoje, dificilmente

haverá sequer gafanhotos

para comer.


Li, recentemente, que se as abelhas 

sumirem do planeta cerca 80% da vida, 

inclusive a raça humana, sucumbirá. 

Atribui-se a Einstein a seguinte frase: “Se

 as abelhas desaparecerem da face da terra,a 

humanidade terá apenas mais quatro anos de 

existência”. Não sei se tanto, mas o assunto

 é sério. Escrevi no Google “abelhas em 

extinção” e surgiram diversos links a 

respeito do assunto. Fiquei sabendo que a 

principal causa do fenômeno catastrófico é o

 uso abusivo de pesticidas em nossas 

lavouras. Principal, mas não único. O

 ataque de vespas predatórias também 

contribui para a diminuição drástica das 


colmeias.


Já lhes falei sobre o morro rochoso que 

priva a minha cozinha de sol. Esses dias o 


meu vizinho pagou um sujeito com 

fama de alpinista pra roçar a vegetação do 

morro. Deixou-o na pedra. Imediatamente

 minha casa foi invadida por aranhas, cobras


 e abelhas que, perdendo seu habitat,


 tornaram-se criaturas sem teto.


Os governos de alguns países europeus estão 

instruindo a população a tomar algumas

 medidas para evitar o agravamento desta

 situação, tais como cultivar flores e não

 cortar grama com muita frequência. 

Percebe-se claramente que este é um problema 

mundial.


Esta semana encontrei em um posto de gasolina

 da BR470 um argentino cuja missão era salvar


 as abelhas da extinção. Perguntei por que 


ele não estava fazendo esse trabalho em seu 

país, já que lá também deve haver esse tipo 

de ocorrência. Há, ele me confirmou. Porém, 

na Argentina, nada, com exceção da saúde

 pública, funciona, enquanto que aqui no


 Brasil a preocupação com o meio ambiente é


 latente e real. Depois ele subiu na sua 


velha e desbotada minivan carregada com 


caixas de abelha, deu partida no motor e 


gritou pela janela antes de pegar a estrada: 


Se acaso el Brasil cuidase de sus enfermos y deteniera a los 


delincuentes, éste sería el mejor lugar para vivirse
.”. 


Pode ser que, pelo menos, as abelhas se 


salvem.



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