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terça-feira, 31 de março de 2015

Quem disse...




"Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida."
Confúcio

quarta-feira, 25 de março de 2015

Trecho de Memórias...



De todo o processo operatório, a pior parte é aquele tempo - 

que pode ser pouco ou muito - em que ficamos na sala de 

 recuperação. Claro que alguma outra pessoa que passou por 

isso poderá pensar diferente, mas para mim a sala de 

recuperação é como o purgatório. Cheguei a ficar horas em 

uma unidade em reformas. Marteladas, poeira e barulho de 

furadeira eu ali, fazendo reposição de sangue por causa de 

uma hemorragia no pós-operatório. Por muito tempo eu fui o 

único na sala, pois os outros pacientes eram logo enviados aos 

seus leitos para serem poupados daquela Babel, até que a 

enfermeira responsável pelo setor se solidarizou com a minha 

situação e, desobedecendo a orientação de meu médico, me 

mandou para o quarto onde meus familiares me aguardavam.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Quem Disse...





Fio dental: utensílio que você usa para 

remover fiapos de fio dental que ficam entre

 os dentes quando você usa fio dental.

Maurício Pons

quinta-feira, 19 de março de 2015

Quem disse...



“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria.”


“O coração, se pudesse pensar, pararia.”


“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha."

Fernando Pessoa


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sexta-feira, 13 de março de 2015

Quem Disse...



"Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros… Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes."


Marco Aurélio


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terça-feira, 10 de março de 2015

Rain Man



Lembrei de quando era criança, da casa da 

praia, dos meus primos brincando, do Poisé - 

nosso vira-lata – sempre sujo de óleo porque 

gostava de dormir sob os carros. Lembrei dos

 jogos de futebol com a bola de couro 

encharcada, as goleiras de Havaianas, os 

gritos de foi falta e os berros de foi gol. 

Lembrei da minha mãe exclamando meu filho, 

vem 

pra dentro, olha o resfriado. Recordei com 

saudade do cheirinho que vinha da cozinha, 

café fresco e bolo no forno. Senti novamente

 o prazer de um banho de calha, a cascata 

chicoteando as costas, fazendo massagem. 

Legal era vir correndo, se jogar de peito na

grama e sair deslizando pela água empoçada.

 Banho de chuva!

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Todas essas imagens me vieram à lembrança

 nestes quinze minutos de caminhada pela 

BR 470 sob torrencial e refrescante 

borrasca. 

Revi o sorriso dos meus irmãos e primos; a 

felicidade zangada de nossas mães e tias; a 

alegria de nossos avós por ver a família 

reunida. Quinze minutos caminhando na chuva.



Não é tão divertido quando se está usando

 óculos, calça jeans, sapatos e a caminho do 

trabalho.

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Quem disse...




"Sempre me vêm com estatísticas, tentando provar que viajar de carro é mais perigoso, que as estradas são cheias de buracos. E eu respondo: 'Pior é no avião, que o buraco acompanha a gente o tempo inteiro”  

Ariano Suassuna



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segunda-feira, 9 de março de 2015

Quem Disse...

  



 "A vida não é justa. Nunca foi e nunca será. Às vezes, você precisa viver com seu instinto assassino apenas para conseguir sobreviver em sua busca pela felicidade. Pois ninguém fará por você o que você precisa fazer". 
Ricky Warwickvocalista do Black Star Riders

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sexta-feira, 6 de março de 2015

Planos Cumpridos





Sentaram-se no meio-fio, sob a luz vacilante do poste de 

madeira. Por alguns segundos o silêncio era tanto que 

podiam ouvir o estalo que o comutador emitia quando o

 semáforo mudava de cor. Naquela hora da madrugada o 

cruzamento era deserto. Estavam em uma área povoada por 

pequenas fábricas e alguns depósitos. Os dois amigos 

 trabalhavam em uma dessas empresas, distante algumas 

quadras de onde se encontravam agora. Trabalhavam no 

turno da noite e deveriam ficar até a primeira hora da

 manhã, quando costumavam ir para casa com os primeiros

 raios de sol. Naquela noite, porém, uma falha no

 equipamento do setor onde operavam os liberou mais cedo,

 pois só seria consertado na manhã seguinte. 


Observavam um carro imóvel a poucos metros do 

cruzamento. Um homem sentado dentro do carro com a 

cabeça pendente, o queixo encostado no peito, parecia

 dormir.

- Como você está se sentindo?

O rapaz de cabelos negros desviou a atenção do automóvel

 e cruzou as pernas, quase em posição de yoga. Esfregou as

 mãos e olhou para o amigo.

- Um pouco de frio, apenas.

- Frio?! Está uma noite linda, e mal entramos no outono. 

Além do mais você está usando essa jaqueta de couro

 horrível.

- Eu sei. Mas você já notou que os muros dessas fábricas 

formam um imenso conduto? Sempre corre um vento 

gelado nesta hora da noite. Além do mais, essa jaqueta já

 deu o que tinha que dar. Preciso comprar outra antes que

 chegue o inverno. E você, tudo bem?

O motorista do veículo pareceu acordar. Tentou dar a 

partida. O motor fez uma série de barulhos que invadiram a

 noite e morreu em seguida. Uma outra tentativa e

 novamente a máquina protestou silenciando na sequência.

- Acho que ele cruzou o sinal no vermelho – disse o jovem

 loiro e de feições serenas.

Conseguiram o emprego na mesma época. Moravam no

 mesmo bairro, iam e voltavam juntos para o trabalho. Uma

 nova tentativa de fazer o motor pegar ecoou pela rua.

- Mesmo que consiga fazer funcionar acho que ele não vai a

 lugar algum. Está um bocado estragado.

- O que é aquilo preso à roda?

- Acho que é o tanque da moto, ou o que sobrou dele – disse

 loiro, que se chamava Victor.

O homem desceu e, apoiando-se na lataria, foi até a frente do carro.

 Avaliou o estrago, esfregou a mão no rosto e passou os

 olhos pela escuridão do asfalto. Voltou, acionou a lanterna 

e fez nova pesquisa. Pedaços de plástico e ferro estavam

 espalhados pelo caminho. Perto do único farol que ainda 

funcionava estava um dos ocupantes da moto, imóvel. O 

outro rapaz estava a uns vinte metros, metade do corpo 

sobre a calçada. Um filete de sangue escorria pelo rosto do 

homem, mas não parecia nada grave. Ele olhou por alguns

 segundos para um telefone público perto de onde os dois 

amigos estavam sentados, mas se pensou em usá-lo não

 demonstrou e, dando meia-volta, saiu apressado pela rua 

em uma corrida desajeitada.

- Está tão bêbado que duvido que conseguisse diferenciar o

 verde do vermelho. Não deve nem ter visto o sinal. 

- É - respondeu Victor, - e ainda vinha com os faróis

 apagados. 

- O que vamos fazer? 

- Vamos esperar. Alguém virá.

Um portão foi aberto atrás dos garotos. Era o vigia de uma

 pequena fábrica de mochilas que veio ver a causa do

 barulho. Passou ao lado de Victor e foi até o meio da rua, 

depois voltou correndo ao telefone e ligou para o 190 

comunicando o acidente à polícia.

- Hoje é seu aniversário, Vito, e nem lembrei de dar os

 parabéns.

- Não se preocupe, Tom, você está dando agora, não está?

- Mas deveria ter dado antes. Desculpe-me. Parabéns, meu 

amigo.

Victor estendeu o braço e tocou o ombro do colega.

- Tudo bem, Tom. O importante é que você lembrou. Fico

 muito feliz.

A vítima que estava mais distante do carro estremeceu 

emitindo um som estranho, um gemido afogado. Thomas 

ouviu e se encolhei ainda mais, envolvendo as pernas com 

os braços.

- Mas que droga de jaqueta. Continuo com frio. Como você 

pode não estar sentido?

- Pelo contrário, estou me sentindo muito bem. Nem calor

 nem frio. Na verdade nunca me senti assim, que eu me 

lembre. 

Ouviram sons de sirenes se aproximando. Um táxi passou

 lentamente pelo local do acidente e Thomas viu quando o

 casal sentado no banco de trás fez sinal para que o

 motorista seguisse em frente. Dois operários que vinham de

bicicleta pararam para conversar com o vigia que tinha

 chamado a polícia. Um deles fez repetidas vezes o sinal da

 cruz. Logo depois duas ambulâncias chegavam ao local,

 juntamente com uma viatura da polícia militar. Enquanto 

os paramédicos examinavam os acidentados os policias 

isolavam a área com fitas zebradas de amarelo e preto. Um

 homem fardado inspecionava o carro envolvido no

 acidente.

Victor e Thomas observavam a tudo com muito interesse.

- O que você acha que vai acontecer?

- Vai ficar tudo bem. Eles vão cuidar de você.

- Mas e você, Vito? É seu aniversário, cara. Nem

 éramos pra estarmos aqui. Vamos embora.

- Precisamos esperar, Tom. Você tem que ir com eles.

- Eu? Com eles quem? E você? 

Victor mirou o amigo com placidez e ternura. Toda a cena

 desenvolvida em frente aos garotos não parecia perturbar

 esse jovem. Seu rosto estava sereno, inube. Thomas fitou

 por um longo momento o rosto de Victor tentando ler as

 emoções que valseavam em seus olhos claros. Esqueceu

 por um momento o frio e o medo que sentia e foi tomado

 por grande admiração por seu colega que parecia entender

 tudo o que estava acontecendo naquela madrugada. Não

 viu quando o policial achou algumas garrafas vazias no

 interior do carro, nem percebeu quando um gato se sentou

 ao seu lado e ficou se lavando com a própria língua.

- Você está diferente, Victor.

- Porra, Thomas. Faz um século que você não me chama

 pelo nome. Vai me cobrar as dez pratas da última aposta? –

 disse sorrindo.

- Fica tranquilo, meu irmão. Ainda está no prazo – brincou

 Thomas, devolvendo o sorriso. - Mas, sério. Você está... 

bonito.

- Ihhh! Não vai querer me namorar agora, vai?! Eu vivo 

falando que você precisa arranjar uma garota, Tom de Deus.

 Liga pra Alice, ela tá só esperando.

Victor ficou sério de repente.

- Eu estou bem, Tom. Mesmo. Não sei explicar bem o que

 estou sentindo. Não é exatamente uma alegria, pois não 

poderia ter tamanho sentimento aqui sentado em frente a 

este acontecimento horrível. O homem que provocou o

 acidente...

- Estava bêbado.

- Sim, possivelmente. A polícia o encontrará e talvez ele

 não pague por sua imprudência, não por nossas leis. A 

gente vê isso todo dia e as coisas nunca são como

 deveriam ser. Mas mesmo nesse momento eu não sou capaz

 de odiá-lo, e até consigo perdoá-lo. 

Um homem da polícia se aproxima da vítima que está caída

 próximo ao automóvel e a cobre com um plástico preto,

 enquanto os paramédicos se ocupavam do outro jovem

 imobilizando-o em uma maca vermelha. Uma das 

ambulâncias já tinha ido embora.

- Ontem falei com meu irmão - disse Victor,  - ele está viajando e ficou

 com medo de não conseguir me ligar amanhã, ou melhor, hoje,

 para me dar os parabéns. A gente não tem conversado

 muito ultimamente, e

 sinto muita a sua falta. Disse isso a ele. Queria que ele

 soubesse que, apesar de nossas diferenças ,que são muitas,

  ele é meu melhor amigo. E não precisa fazer essa cara,

 Tom, você também é meu melhor amigo. Você é como um

 irmão pra mim, e sabe muito bem disso.

“Quando desliguei o telefone, depois de falar com o Rafa, 

senti uma saudade de casa, do pai, da mãe. Sabia que eles

 telefonariam hoje por causa do meu aniversário, mas me

 adiantei e comprei várias fichas de telefone só pra ligar pra

 eles. Papai disse que ia colocar o relógio para despertar às

 sete horas para ligar aqui pra fábrica e me dar os parabéns

 antes que saíssemos”.

- Bem, parece que não vai nos achar na fábrica hoje de 

manhã. Aquela máquina já estava pra estourar há alguns

  dias.

- É. Ainda bem que liguei. Conversamos bastante, sobre

 tudo. O pai me falou da cidade, das eleições deste ano (ele 

fica bem eufórico nessa época), da aposentadoria que se

 aproxima, das dores que sente no ombro sempre que vai 

chover. Quer vir me visitar no feriado, mas isso ele diz 

sempre. Nunca vem. Não o culpo. Essa agitação toda daqui

o deixa bem nervoso. Falei que não se preocupasse, que

 assim que saísse nosso aumento eu iria até lá. Mamãe ficou

 feliz com a ideia. Perguntou por meus planos, pelo

 trabalho, das namoradas. Também perguntaram por você.

 Disseram para irmos juntos. Mamãe vai fazer aquele bolo

 que você comeu sozinho da última vez. Dois. Um pra você

 e outro para o resto de nós. Você sabe de quem é esse

 gato? Parece que gostou de você.

O gato estava deitado bem em frente aos dois amigos, e 

encarava Thomas com curiosidade.


- Não sei – respondeu Thomas, - mas ele é bem simpático.
  

- Você deve ir agora – disse Victor acenando a cabeça em

 direção ambulância que ainda estava no local. A equipe de 

socorristas já tinha colocado a maca com o garoto ferido na 

unidade de resgate e preparava-se para partir. Thomas se

 ergueu com rapidez, quase flutuando. Olhou para a

 ambulância e depois para o amigo que continuava sentado 

na calçada.

- E você?

- Virão me buscar.

Thomas andou alguns metros em direção ao carro de

 socorro e parou, voltando-se para o amigo.

- Quando seus pais perguntaram quais são seus planos, o

 que você respondeu?

- Ser feliz. E falei também que já os tinha alcançado.

Deu mais dois passos e se voltou para o amigo pela última

 vez.

- Feliz Aniversário, Vito.

Thomas entrou na cabine iluminada da ambulância onde o

 jovem sobrevivente estava sendo reanimado pelos

 paramédicos . Antes que a porta fosse fechada, pode ver

 um dos enfermeiros afastando o gato que parecia querer ir

 junto.



********



Eu já estava no hospital há algumas semanas quando me

 contaram que Vito não havia sobrevivido àquela noite. Os 

médicos acharam melhor me poupar de mais esse trauma 

enquanto eu me recuperava dos ferimentos mais graves. 

Depois de outras tantas semanas e algumas cirurgias

  Mais um período de adaptação em casa e 

logo voltei ao trabalho. Consegui me formar na faculdade,

 arrumei um ótimo emprego, casei e tive um filho a quem

 demos o nome de Vitor, que nos deu Pedro, meu neto.

 Construí uma sólida carreira e, principalmente, fui feliz, 

profissional e pessoalmente. Durante todo esse processo de 

minha vida em nenhum momento, acordado ou sonhando, 

eu lembrei da conversa que tivemos sentados naquela

 calçada, eu e o Victor, na noite 

do acidente, a noite de sua morte. Até agora.


Eu estava em pé num canto do meu quarto onde apenas um

 abajur de cabeceira emprestava uma frágil e amarelada 

luz ao ambiente espaçoso. Alice, minha esposa, 

estava sentada na beira da cama, segurando a mão do 

homem que jazia deitado de olhos fechados e coberto por 

uma manta até o peito. Foi nesse momento, admirando o 

rosto silencioso da única mulher que amei na vida, que 

recordei a última conversa que tive com meu melhor amigo.

 Vi novamente sua expressão serena enquanto estávamos 

sentados na calçada e pude entender e o que 

ele estava sentindo naquela madrugada.
 

A porta do quarto foi aberta e vi meu filho entrar. 

- Pedro dormiu e Ângela está na cozinha fazendo um chá

 pra você. Vou descer para dar alguns telefonemas. Precisa

 de alguma coisa?
 

- Obrigada, meu filho, eu estou bem. Só quero ficar alguns 

minutos sozinha com seu pai.

- Está bem, mãe. Qualquer coisa me chama. - Deu um beijo

 na testa da mãe e saiu do quarto, deixando-nos a sós.


Não havia lágrimas em seu rosto. Nem dor. Levantou-se, 

puxou uma poltrona pra perto da cama e sentou. Trouxe a

 mão do homem para seu colo e ficou acariciando sua pele

 acinzentada.

- Obrigado, Tom – disse num sussurro, - por me fazer feliz 

em todos esses anos.

- Obrigado a você, meu amor – respondi, sem ser ouvido.

 Inclinei-me e toquei seus lábios com os meus. – Adeus, 

Alice.

 Levantei-me da cama e fui para junto de meu amigo.
 

- Você está pronto, Tom?

- Estou sim, Vito. Podemos ir.

Planos cumpridos.