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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Viagem



Partiu às dezenove horas e meia o ônibus que

 deveria ter saído sessenta minutos antes, o

 que geralmente acontece com esses pinga-

pinga de sexta-feira. Quando tomei meu lugar

 na poltrona 27 o veículo já estava bastante 

ocupado. O ar em seu interior sustentava

 partículas diversas: perfume barato,

 salgadinho de queijo e pés suados. O

 compartimento de água mineral estava vazio,

 e meu desejo de que o reabastecessem 

novamente não foi satisfeito. Por sorte logo 

iríamos fazer uma parada de meia hora para 

troca de motorista e jantar. Não que eu 

estivesse com fome - não estava, mas vou 

precisar da água.

Gosto de viagens longas em ônibus. É quando

 consigo pensar. Pensar em quê? Em respostas!

 Não em respostas que eu procuro, mas nas que

 procuram em mim. Não nas certas, mas nas

 erradas, nas que falei sem ao menos pensar 

por cinco segundos. Essa é a ironia. Falo 

sem pensar, e depois não penso em outra 

coisa, nas possibilidades, oportunidades

 perdidas, no que poderia ter sido e no que

 foi realmente.

Não concentro no livro, não escuto a música,

 não sinto mais os cheiros; só ouço a minha 

voz que desconheço dizendo palavras que eu 

não queria ter dito. O profeta estava certo:

 palavras são como flechas que depois de

 lançadas não mais retornam.


Após trinta e cinco minutos de viagem o

 ônibus parou em um restaurante de beira de

 estrada. Precisei acordar o senhor que

 dormia na poltrona ao lado para que eu 

pudesse descer. Na calçada, alguns

 passageiros inundam seus pulmões com

 nicotina. Dentro do restaurante as filas se

 formam no bufê de salgados e doces. Pago 

minha água e volto para o meu lugar dentro do

 coletivo. Chequei o celular. Nenhuma ligação

 ou mensagem de texto. Toquei no pequeno 

ícone na lista de contatos do aplicativo e o

 sorriso se ampliou na tela brilhante. 

Depois de constatar que não estava online guardei o telefone no bolso da calça e coloquei os fones para ouvir The Police. Pensei em ligar. Devia?! E dizer o quê? Que tudo o que eu falei não era o que eu queria ter dito? Que ela entendeu errado porque eu não falei certo? Que ainda não era tarde demais? Ambos sabemos que o tempo passou e que agora não tem tanta importância; não depois de tudo o que eu (não) disse e fiz.

Os passageiros dormem enquanto o ônibus 

desliza suave pelo asfalto escuro como a 

madrugada. Apanho do chão minha única 

bagagem, uma mochila preta que uso pra 

carregar livros, o Ipod, fones de ouvido e 

outras coisas que uso nessas viagens. Abro

 o bolso de fora e pego três comprimidos. 


Tomo primeiro o branco, que me fará dormir,

 com um gole da água mineral sem gás que 

comprei no paradouro. Acendo a luz de 

leitura, abro o livro onde está o marcador de

 páginas e leio: “Há certo gosto em pensar

 sozinho. É ato individual, como nascer e 

morrer.” Li mais um pouco até que o remédio 

começou a fazer efeito. Peguei os outros dois

 comprimidos, amarelos, e com goles mais 

generosos de água eu os engoli. Repouso o 

livro no colo, reclino a poltrona, fecho os 

olhos e fico esperando os remédios fazerem 

seu trabalho. Tenho uma longa viagem pela

 frente, e pela primeira vez eu não sei bem

 para onde estou indo...