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quarta-feira, 9 de março de 2016

Dando o sangue






Em cada uma das tantas cirurgias por quais passei o hospital me pediu para convocar doadores de qualquer tipo sanguíneo para abastecer o banco de sangue e, caso precisasse, para mim. Já nos anos 90 as reservas eram escassas, e hoje, apesar de tantas campanhas de conscientização, o quadro não mudou muito. Foi com esse pensamento que cheguei ao Hemosc de Blumenau esperando encontrar por lá dois ou três doadores. Felizmente, não foi bem assim.

Cerca de dez pessoas conversavam do lado de fora do prédio. Julguei que fosse uma turma de voluntários prestes a ganhar as ruas em mais uma campanha pró-doadores. Passei pelo animado grupo e entrei no hall onde um homem uniformizado me deu bom dia, grudou no meu peito um adesivo onde se lia “doador” e indicou o fim de uma fila que subia pelas escadas desaparecendo no segundo piso. Contei cerca de vinte voluntários na minha frente. Encostei-me a parede abrindo o livro que levara comigo e comecei a ler a história do brilhante físico Stephen Hawking, contada por sua esposa Jane.

Mais pessoas foram chegando. No segundo andar me deparei com uma sala de espera lotada, com todos os assentos ocupados e muita gente em pé. Logo fui chamado por uma mulher vestindo um jaleco branco para fazer o cadastro de doador; outra mulher, igualmente vestida, depois de inserir meus dados pessoais no sistema, entregou-me um questionário de duas páginas que eu deveria responder com “a máxima sinceridade”. Em seguida vagou uma cadeira e eu pude me sentar para respondê-lo, o que levou cerca de dois minutos.

Novamente meu nome foi chamado e sentei-me em outra mesa com outra colaboradora que retirou uma amostra ínfima de sangue do meu dedo indicador para um teste rápido, além de medir minha temperatura e pressão arterial.

Voltei para a sala de espera, e enquanto aguardava ser chamado para a entrevista pus-me a observar aquelas pessoas que estavam ali unidas por um mesmo ideal. Homens e mulheres, jovens e adultos, casais de namorados, pessoas sozinhas, mães e pais acompanhados pelos filhos - crianças que provavelmente seguirão o exemplo quando estiverem aptas. Não se importavam com o fato de que, naquele dia, o tempo para realizar todo o processo estivesse demorando bem mais do que os 55 minutos sugeridos pelo monitor. Doavam, além do sangue que seria dividido em plaquetas, plasma e hemácia e que salvaria muitas vidas, um pouco do seu tempo, algumas horas de uma manhã de sábado ensolarado. Ninguém parecia ter pressa, doadores e funcionários do Hemosc. Abri meu livro novamente e mergulhei na leitura até ser chamado para a entrevista onde uma simpática mulher (marca registrada dos funcionários do Hemosc, a cordialidade) confirmou alguns apontamentos contidos no questionário e, logo após, me liberou para a doação. Depois de outro período de espera onde foi servido biscoitos e suco para o pessoal que aguardava a vez e que, como eu, começava a sentir fome, fui chamado para cumprir o motivo maior de estarmos todos ali, a retirada de 450ml de sangue.

Não levou 15 minutos! Terminado este processo, fui encaminhado ao refeitório para repor os nutrientes perdidos. Enquanto devorava o lanche que é servido a todos os doadores puxei assunto com a menina da copa. Ela me contou que aquele era um dia atípico, com mais doações do que em outros sábados, um dia para se comemorar.

Estima-se que no Brasil cerca de 1,5% da população doa sangue, número que o governo pretende aumentar nos próximos anos através de campanhas de incentivo. O procedimento é simples, indolor e pode salvar muitas vidas através de uma única doação. Eu poderia dizer que perdi três horas do meu sábado, porém saí dali com a sensação de ter ganhado algo. Foi a maneira que encontrei para retribuir e agradecer aos amigos e anônimos que responderam ao chamado do hospital onde estive internado quando precisei de doadores, há vinte anos atrás.  Na saída, quando deixava o prédio do Hemosc, ainda tive tempo para uma rápida conversa com o cara da recepção sobre o livro que eu estava lendo. – Também tem o filme, né? - disse-me ele enquanto trocávamos um aperto de mão sob o sol das 13h; saí caminhando pela calçada com a certeza de que, muito em breve, o verei novamente.