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terça-feira, 24 de maio de 2016

Vamos Mudar de Assunto?




O filme A Rede Social nos possibilita a rara oportunidade de entendermos um pouco os desdobramentos acerca da criação de uma ferramenta que milhões de pessoas utilizam ao redor do mundo, o Facebook, atualmente a mais popular rede social online do planeta. 

Criado em 2004, o Face desbancou aquele que era o queridinho dos internautas, o Orkut (fundado no mesmo ano), e tempos depois adicionou ao seu vasto império tecnológico startups como o Instagram e o WhatsApp, tornando seu fundador, Mark Zuckerberg, o sexto homem mais rico do mundo, segundo a Forbes.

As redes sociais mudaram o modo de as pessoas se relacionarem. Já promoveram casamentos e renderam divórcios. No mundo corporativo, empresas de todo tipo e tamanho as utilizam para divulgar seus produtos e até recrutar colaboradores. Festas de aniversário com cinco convidados ou gigantescas manifestações populares são convocadas pelos perfis do Facebook. Nascem e morrem amizades nas redes sociais.

O ClassMates (colegas, em inglês) é considerado a primeira rede social, criado em 1995 nos Estados Unidos, mas o Orkut foi a pioneira em popularidade no Brasil. Isso considerando-se a era digital, pois, para mim, as redes surgiram ainda no começo dos anos 80, com o singelo nome de “Questionário”.


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O Questionário consistia em um caderno escolar, pequeno, cerca de 50 folhas, onde a turma expressava suas preferências. Invariavelmente, na primeira página pautada numerada linha por linha, a garotada assinava o nome. Linha 1 - José; linha 2 - Beto; linha 3 – Bruna; sucessivamente. Depois, nas páginas seguintes, as perguntas: qual sua idade, cidade onde mora, escola onde estuda, e o José respondia sempre na linha 1, o Beto na 2 e assim por diante.  Como no Facebook, os amigos “postavam” a comida predileta, o filme que assistiu, o livro que leu, os lugares visitados, a fruta, a cor, as músicas favoritas, sempre respondendo ao questionário, uma pergunta por página. Então, lá pelo meio do caderno, vinha a pergunta fatal: Vamos mudar de assunto? Era aí que a coisa ficava realmente interessante.

A molecada abria o coração. Desse ponto em diante o tema era namoro. Quem estava a fim de quem, quem trocou beijos nos fundos da escola, por quem o coração adolescente batia mais forte! O mais legal era ler as respostas dos outros, tarefa mais divertida do que responder às indagações. Era zero imagem e 100% leitura. Algumas conquistas nasciam ali, naquelas páginas encardidas por tanto manuseio. Para encerrar, as últimas folhas do Questionário eram reservadas para que os assinantes deixassem comentários, mensagens e recadinhos para o dono do caderno, tal qual a ferramenta Depoimento que o Orkut disponibilizava. 

Aquele caderninho era o perfil do inquisidor, a sua página social. Ali continha um pouco da vida dos seus amigos. Não de mil amigos, como amontoamos hoje nas redes sociais, mas de uns quinze, vinte ou trinta, no máximo. Não virtuais, mas amigos e colegas que víamos todos os dias na escola, nas ruas do bairro, nas festinhas de domingo. Ninguém falava de política, de novela, de BBB ou de futebol (no máximo uma pergunta sobre o time do coração). Ninguém deixava de ser amigo por conta de uma opinião polêmica ou resposta mal intencionada. Apenas nos conhecíamos mais uns aos outros e nos divertíamos fazendo aquele pequeno caderno rodar de mão em mão.


Hoje o Questionário é mais uma dessas brincadeiras que se perderam na poeira do passado, seguindo o caminho de tantas outras que foram substituídas por jogos de computador e aplicativos de celular. Normal! O Facebook também sucumbirá algum dia, assim como Whatsapp. Serão substituídos por alguma outra super novidade tecnológica. Torço para que, pelo menos, consigamos preservar as amizades, as verdadeiras, aqueles amigos que, em algum momento de nossas vidas, compartilhamos um caderno amassado, uma cerveja gelada, um abraço apertado, um sonho possível. Amizades sem bandeiras, sem partidos. Apenas amizade!

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